A complexidade e profundidade do conceito de suicídio refletem a diversidade de perspectivas e abordagens dos estudiosos ao longo dos sé...

A complexidade e profundidade do conceito de suicídio refletem a diversidade de perspectivas e abordagens dos estudiosos ao longo dos séculos. Este fenômeno tem sido objeto de intensas pesquisas e debates por parte de uma vasta gama de autores, cada um trazendo suas próprias interpretações e compreensões à mesa. O termo "suicídio", com suas raízes profundamente entrelaçadas na evolução da linguagem e da cultura, foi provavelmente introduzido pela primeira vez na língua francesa pelo abade Desfontaines entre os anos de 1734 e 1737.
A etimologia da palavra revela uma construção rica e multifacetada, derivada das palavras latinas "sui" (de si mesmo) e "caedere" (matar), traduzindo-se assim para "o assassinato ou morte de si mesmo". Esta definição não só capta a ação física, mas também insinua as complexas motivações psicológicas e sociais que podem levar um indivíduo a tal ato, tornando o estudo do suicídio um campo vasto e intrincado, permeado por nuances filosóficas, psiquiátricas e sociológicas.
Temos o seguinte significado etimológico:
- Sui = si mesmo;
- Caedes = ação de matar.
Em peças jurídicas, é comum observar-se o uso do termo "autocídio" como sinônimo de suicídio, já tendo estes termos passados a constar do léxico.
Durkheim, conceitua suicídio como sendo todo caso de morte que resulte direta ou indiretamente de um ato positivo ou negativo, praticado pela própria vítima, sabedora de que devia produzir esse resultado. A tentativa é o ato assim definido, mas interrompido antes de resultar em morte.
Por sua vez Shneidman utiliza o seguinte conceito: “o ato humano de cessação auto-infligida, intencional" e que pode ser mais bem compreendido ‘como um fenômeno multidimensional, num indivíduo carente, que define uma questão, para a qual o suicídio é percebido como a melhor solução."
O suicídio resulta de um ato deliberado, iniciado e levado a cabo por uma pessoa com pleno conhecimento ou expectativa de um resultado fatal. O suicídio constitui hoje um grande problema de saúde pública.
Tomada como média para 53 países, dos quais há dados completos disponíveis, a taxa agregada e padronizada de suicídio em 1996 foi de 15,1 por 100.000 habitantes. A taxa de suicídio é quase universalmente mais alta entre homens em comparação com mulheres, por um coeficiente agregado de 3,5 homens para cada mulher.
Causas
Segundo GREGÓRIO, as causas do suicídio são numerosas e complexas. Elas são geralmente analisadas sob três aspectos:
Perspectiva Biológica
Pesquisas indicam que o comportamento suicida acontece em famílias, sugerindo que fatores biológicos e genéticos desempenham papel de risco. Algumas pessoas nascem com certas desordens psiquiátricas tal como a esquizofrenia e o alcoolismo, o que aumenta o risco de suicídio.
Teorias Psicológicas
Em princípio, o suicídio é comparado por muitos psicólogos com os casos de neurose. Os determinantes do suicídio patológico estão nas perturbações mentais, depressões graves, melancolias, desequilíbrios emocionais, obsessões e delírios crônicos.
O psiquiatra americano Karl Menninger elaborou sua teoria baseando-se nas idéias de Freud. Ele sugeriu que todos os suicidas têm três dimensões inconscientes e interrelacionadas: vingança/ódio (desejo de matar); depressão/desespero (desejo de morrer); culpa/pecado (desejo de ser morto).
Sentido Sociológico
Socialmente o suicídio é um ato que se produz no marco de situações anômicas (desorganizadas) em que os indivíduos se vêem forçados a tirar a própria vida para evitar conflitos ou tensões inter-humanas, para eles insuportáveis.
Para Émile Durkheim, a causa do suicídio só pode ser sociológica. Em seu estudo caracterizou três tipos de suicidas:
- Suicida Egoísta: A pessoa se mata para não sofrer mais;
- Suicida Altruísta: A pessoa se mata para não dar trabalho aos outros (geralmente pessoas de idade);
- Suicida Anômico: A pessoa se mata por causa dos desequilíbrios de ordem econômica e social. Exemplo: a Revolução Industrial, tirando empregos de algumas pessoas, estimulou-lhes o suicídio. (Enciclopédia Encarta)
De acordo com os estudos de Gregório (1996), o suicídio é um mal individual social que tanto choca e traumatiza, e que aumenta sobremodo nas situações de crise. Devido a isso, aumentou muito o número de suicídios ao mesmo tempo em que surgem ou se intensificam crises econômicas. Só em Brasília, em 1996, chegou ao assustador número de 30 os casos ocorridos, só no começo do ano, incluindo os cometidos em circunstâncias espetaculares, com a visível intenção de chocar, como um último, desesperado e nem sempre tão eficiente brado contra as dificuldades ou dores que os seus protagonistas experimentam.
Nestas circunstâncias, as causas do suicídio são:
- Ruínas financeiras;
- Vergonha e desonra;
- Desilusões amorosas;
- Doenças surgidas, do corpo e da mente;
- Depressão, solidão;
- Medo do futuro, de fatos sabidos ou imaginados.
Mas, analisando em maior profundidade essas principais razões do tresloucado gesto, veremos também, sem dificuldade, que não são fatos e ocorrências, em si, que devem ser responsabilizados pela consumação do suicídio, sim a repercussão deles na pessoa. O que leva ao desespero não é o fato desditoso, mas a maneira como a pessoa o elabora. Prova disso é que inúmeras pessoas estão, por toda parte, suportando fardos bem mais pesados que os que levam tantos ao suicídio e nem se creem tão infelizes assim. Na verdade, correspondendo aos itens acima, que desencadeiam os atos extremos, dentre os quais o crime e o suicídio.
Poderíamos listar outros que se referem não aos acontecimentos externos, mas às reações subjetivas perante eles:
- Orgulho pessoal, que se recusa a admitir o fracasso e a repentina ou gradual mudança do padrão de vida;
- Amor próprio exacerbado, que faz acreditar que sua imagem não possa sofrer nenhum arranhão ou ferimento, que o tempo e o esforço não possam recompor;
- Excessivo apego à matéria e esquecimento dos "exercícios da alma", expondo se à sensação de derrocada, do "tudo acabado", quando um mal físico ou perda emocional cega a pessoa para os caminhos da reabilitação, ainda quando trabalhosos e longos.
Em suma, a verdadeira causa do suicídio não está nas ocorrências infelizes, mas na maneira como a pessoa capitula diante delas, por uma simples questão de livre arbítrio mal dirigido.
FONTE DE REFERÊNCIA
MANUAL DE GERENCIAMENTO DE CRISES ENVOLVENDO SUICIDAS E ATENTADOS TERRORISTAS (CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE SÃO PAULO)








