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História do Mergulho Profundo "Recordes e os Limites Humanos"

A medida em que os cientistas continuavam a trabalhar e construir submergíveis capazes de alcançar maiores profundidades, o interesse pe...

A medida em que os cientistas continuavam a trabalhar e construir submergíveis capazes de alcançar maiores profundidades, o interesse pelos recordes de profundidade seja em apnéia (pulmão livre), seja por escafandro autônomo, começa a ter mais adeptos. No que diz respeito ao mergulho livre (apnéia) e sem que se tenha a remontar aos antigos pescadores de esponjas e corais, se dispõe de dados mais recentes, ainda que um pouco contraditórios. Das imersões dos mergulhadores gregos, alguns autores mencionam apenas um deles (Scotti Geris) a 60,95m em 1913, outros escritores referem apenas ao seu compatriota Starki Hasikel em 1918, que descendo para liberar uma âncora engatada aos 80m de profundidade, para cuja tarefa se serviu de uma simples pedra como contrapeso. 

Ambas as façanhas, se considerarmos a forma em que foram realizadas, são dignas de menção, mas, sem dúvida, é a última a que se pode qualificar de marca não superada, pois enquanto atualmente já tenha ultrapassado os 130m em apnéia, devemos considerar que aquele mergulhador carecia dos meios e conhecimentos disponíveis aos mergulhadores de hoje, os quais, ainda que possuindo os meios e conhecimentos atuais, demoraram mais de vinte anos para poder superar a marca de Hasikel.  

Foi a partir do ano de 1949, que começaram as primeiras tentativas de recordes em apnéia, quando o italiano Raimondo Bucher, alcançou os 30m, batendo aos 39m três anos mais tarde; o também italiano Alberto Novelli, em 1953, obteve a marca dos 41m, que outro italiano, Anerio Santarelli, superaria em 1960, atingindo os 60m. Também os mergulhadores autônomos desejavam conhecer o limite de suas possibilidades e a equipe de Cousteau inicia, em 1946, uma série de provas, sendo que, em uma delas, na profundidade de 120m, pereceria um dos membros de sua equipe, o contramestre M. Farques. 

Dois anos mais tarde, Fréderic Dumas desceu aos 93m, deixando esta cota como limite para o mergulho autônomo; todavia, seria um espanhol, o catalão Eduardo Admetlla, que no ano de 1957, equipado com um equipamento autônomo “Nemrod” e com carga de ar comprimido, alcançaria as águas de Cartagena aos 100m de profundidade, recorde jamais superado com esta classe de equipamento. Ainda que dois anos mais tarde a equipe formada pelos italianos Falcó, Novelli e Olgiani obtivesse a marca de 130m, fizeram em condições técnicas superiores ao espanhol Admetlla, já que para esta prova utilizaram um regulador desenhado por Novelli, de características muito melhores que o do tipo “standard” utilizado por Admetlla.  

Os êxitos de Piccard e Cousteau serviram de incentivo para que os técnicos e cientistas de outros países também se interessassem pela conquista das profundidades. Os norte-americanos, sempre abertos a qualquer novidade, captaram o professor Piccard e, em colaboração com a “U.S. Navy”, este começou uma série de experiências com o batiscafo Triestre, que em 1960, tripulado pelo filho do professor e um tenente da marinha americana, submergiram na Fossa das Marianas, alcançando a impressionante profundidade de 10.916 metros. 

Apesar de todo o avanço científico, sobretudo quando se desenvolve em um ambiente que não é habitual ao homem, algumas consequências decorrentes da adaptação ao meio foram constatadas, problemas que não eram novos, já que começaram a aparecer nos primeiros tempos do mergulho com ar comprimido; o considerável aumento da autonomia dos equipamentos e o desejo de ampliar cada vez, fizeram com que alguns cientistas dedicassem seus estudos a busca de soluções àqueles problemas. Entre eles, cabe destacar o então jovem professor suíço Hans Keller, que, junto com o Dr. Albert Bühlmann, utilizando uma mistura de gases que haviam concebido, desceram várias vezes, durante os anos de 1959 e 1960, a profundidades de 120m em diversos lagos suíços, inclusive atingindo, em uma ocasião, os 155m, com a utilização de equipamento de mergulho autônomo. 

Com misturas similares, Keller submeteu-se a uma pressão equivalente a 25 atmosferas (250m) em uma câmara hiperbárica da marinha francesa em Tulon. Os problemas do nitrogênio, principal inimigo do mergulhador, começaram a ser investigados com técnicas mais avançadas, tais como reduzir a concentração de oxigênio em benefício do nitrogênio ou substituir o nitrogênio por hélio ou por hidrogênio. Todavia, apesar de todas as imersões com equipamento autônomo, inclusive com alguma dessas misturas gasosas, não superaram os 70m naqueles tempos, ainda que considerada a marca de 130m atingida, em 1945, pelo mergulhador sueco Zatterström, utilizando uma mistura de oxigênio, nitrogênio e hidrogênio, uma vez que, lamentavelmente, perdeu a vida nesta tentativa.  

O Prof. Keller continuou suas experiências e, em 1962, desceu nas águas da Califórnia a 300m, tripulando uma cápsula submergível, da qual efetuou uma saída e procedeu algumas evoluções em seu redor durante vários minutos, utilizando uma mistura de gases de sua invenção, baseadas em suas experiências anteriores. No mesmo ano de 1962, a equipe de Cousteau põe em marcha a operação “Precontinente I”, dedicada a estudar o comportamento do homem alojado em uma casa submarina situada a 10m de profundidade. Esta experiência que resultou em êxito, foi protagonizada por Albert Falcó e Claude Wesley, os quais permaneciam submersos ininterruptamente durante uma semana, realizando frequentes saídas às cotas mais profundas. 

O resultado desta operação animaria Cousteau a por em prática, no ano seguinte, outra de maior alcance, a “Precontinente II”, elegendo para esta experiência as águas do mar Vermelho. A operação consistiu em criar uma pequena colônia submarina, composta de três habitações submarinas. A primeira unidade, fundeada a 10m, era o principal abrigo dos aquanautas; a segunda unidade, situada ao lado da primeira, era a garagem do “disco mergulhador”, enquanto que a terceira, a 26m, era ocupada somente pelos homens e servia de base para as operações de maior profundidade. Esta pequena colônia, que foi habitada por um mês ininterruptamente, tornou pública a adaptabilidade do homem a estas circunstâncias.  

Durante este tempo, cientistas da marinha americana trabalharam em um projeto semelhante, no ano de 1964, nas águas da Califórnia, conhecida como operação “Sealab I”, na qual quatro pessoas permaneceram, com êxito, durante 11 dias a uma profundidade de 58 metros. O êxito dessas operações animaria seus realizadores a buscar metas mais ambiciosas e, enquanto uma parte de Cousteau prepara a operação “Precontinente III”, os norte-americanos trabalharam paralelamente na “Sealab II”; curiosamente, ambas operações se realizariam de forma convergente em data similar, e seu desenvolvimento iria produzir um acontecimento histórico. 

No mês de setembro de 1965, data de ambas as operações, enquanto os americanos se encontravam em sua habitação submarina nas águas de La Joya (Califórnia), a 62m de profundidade, os franceses se achavam a 100m nas águas do Mediterrâneo; a distância entre os “habitats” era de 11.000 km, mas, pelos progressos da ciência, puderam estabelecer entre ambos uma conversa telefônica, entre Philip Cousteau e Scott Carpenter. 

Depois deste experimento se chegou à conclusão de que o homem, devidamente treinado e com equipamento apropriado, providos com os meios que a ciência e tecnologia moderna conquistou, pode realizar debaixo d’água qualquer atividade que normalmente realiza em seu ambiente natural. Certo que ainda encontramos limites que consideram estar próximos aos 300m, mas, também é certo que, por muitos progressos que a ciência possa conseguir, existe um fato que coloca uma barreira intransponível, o de que para sobreviver o homem necessita respirar na atmosfera, isso significa que, qualquer mistura gasosa, não bastaria para que nossos pulmões ventilassem a profundidade maior que 500m (60 atmosferas). 

Entretanto, Cousteau não havia abandonado o desenho e construção de novos submergíveis e lançou três novas versões, cuja referência numérica corresponde aos metros que podiam alcançar: o SP-350, o SP-1200 e o SP-3000. Depois das experiências da chamada operações “Precontinent” e ante os problemas que constataram com os chamados cabos de segurança que uniam as habitações submarinas com a superfície e através dos quais se recebia a energia necessária, projetou e começou a construir um submarino de imersão profunda, totalmente autônoma, capaz de uma autonomia de 400 milhas e uma profundidade de 600m. O submarino estava projetado para poder pousar em qualquer lugar do fundo e servir de base para saídas dos mergulhadores, mas, lamentavelmente, este projeto tão ambicioso e tão interessante não passou de sua etapa inicial de construção, por falta de suporte financeiro. 

O curioso é que, apesar de tanto progresso científico e tecnológico, o homem continua desafiando o mar e a profundidade por seus próprios meios naturais, e os mergulhadores em apnéia seguem obtendo marcas e recordes. A marca de Santarelli foi superada por Enzo Maiorca que alcançou os 53m no ano de 1964, depois de outras marcas anteriores, e que por um breve período superara o polinésio Tetake Williams, com 59m; esta marca foi superada por outro grande nome da apnéia, o francês Jacques Mayol, nascido em Shangai, que alcançou a marca de 60,358m em 1965. A partir deste momento e somente com um breve parêntesis dos três recordes obtidos pelo americano Robert Crof que, depois dos 64,616m, chegaria aos 73,150m, a briga maior era restrita entre Mayol e Maiorca; Mayol seria o primeiro a alcançar os 100m, proeza que obteve em 1977, se bem que Maiorca chegaria muito perto dessa marca; Mayol conseguiu atingir os 110m anos mais tarde.  

Isto demonstra que, apesar de todo o desenvolvimento técnico e científico, o homem, utilizando suas próprias faculdades físicas, continuará conservando suas melhores qualidades físicas e naturais e colocará a prova, uma ou outra vez, em busca da superação de seus limites. Este relato da evolução do mergulho por meio do tempo demonstra o esforço do homem realizado através dos séculos, para conquistar os fundos marinhos, esforços que, como todos os avanços científicos, durante os últimos trinta anos, adquiriu um ritmo vertiginoso; com os avanços tecnológicos e científicos, não havendo barreiras que posam limitar o gênio criador do homem. Ainda assim, as fronteiras que no momento nos impõe o meio marinho, parece que até certo ponto são insuperáveis e provavelmente será muito difícil ultrapassá-las, pois pensar em recorrer à cirurgia para transformar um homem em um semipeixe, nos parece um tanto monstruoso. 

Os êxitos atuais e os meios que um futuro próximo poderá oferecer, cabe pensar que a aventura submarina está apenas começando, pois as perspectivas que se abrem diante de nossos olhos, atônitos diante de tanto progresso, são inimagináveis. E, talvez, todas as fantasias que temos visto em tantas publicações de ficção científica sobre cidades submersas, grandes fazendas submarinas, etc., nos façam pensar que, dadas as possibilidades da ciência do futuro, em espaço de tempo não muito longe, possam ser realidades e com elas o sonho de tantas gerações. Seria, então, quando se poderia produzir o curioso fenômeno do retorno do homem às fontes de sua origem, o mar. 


FONTE DE REFERÊNCIA
MANUAL DE OPERAÇÕES DE MERGULHO (CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE SÃO PAULO)