Os incêndios em instalações industriais constituem ocorrências de elevada complexidade, devido à diversidade de processos, materiais, eq...

Os incêndios em instalações industriais constituem ocorrências de elevada complexidade, devido à diversidade de processos, materiais, equipamentos, instalações e riscos presentes nesses ambientes. A existência de grandes cargas de incêndio, produtos inflamáveis, gases, vapores, instalações elétricas e equipamentos submetidos a altas temperaturas ou pressão pode favorecer o rápido desenvolvimento do sinistro e aumentar significativamente os riscos para as equipes de emergência.
Nesse cenário, a atuação do bombeiro exige conhecimento técnico, avaliação constante das condições encontradas e adequada definição das estratégias de intervenção. O Comandante das Operações possui papel fundamental na organização dos recursos, na tomada de decisões e na coordenação das guarnições, considerando tanto a possibilidade de ataque direto quanto a necessidade de adoção de medidas defensivas ou de salvaguarda.
A compreensão das características da indústria, da carga de incêndio, dos produtos da combustão, dos riscos de explosão, das condições de ventilação e dos demais fatores que influenciam a evolução do fogo é essencial para uma resposta segura e eficiente. Assim, o combate a incêndios industriais requer integração entre prevenção, análise de riscos, estratégia operacional, proteção das equipes e emprego adequado dos recursos disponíveis.
Prevenção Contra Incêndio
A prevenção contra incêndio compreende uma série de medidas quanto a distribuição dos equipamentos de combate a incêndio, dos materiais e estoques pertencentes à indústria, visando impedir o princípio de incêndio, dificultar seu desenvolvimento ou proporcionar sua extinção ainda na fase inicial.
O comandante deve se deslocar para o local do incêndio elaborando mentalmente quais serão as ações a serem desenvolvidas, sem contar com as instalações de proteção e combate a incêndio existentes na edificação, porém se existir, nada impede que ele acione o PAM (plano de auxílio mútuo) e verifique o PPI, (plano particular de intervenção) e de acordo com as informações iniciais obtidas deslocar todo o material e efetivo possível visando o atendimento pronto e eficaz no combate ao sinistro.
O sucesso de uma ação depende da capacidade de avaliar a situação, de pesar os vários fatores que influenciam um sinistro em indústria, aplicar os princípios táticos aliados ao conhecimento dos setores básicos de uma indústria tais como:
- Almoxarifado
- Depósitos
- Expedição
- Produção e processo
- Transporte
- Pátios
- Cabine de energia
Somente após os primeiros contatos no local do incêndio e as avaliações dos sistemas e equipamentos instalados e em funcionamento, é que poderá modificar sua estratégia de ataque, podendo recolher os materiais e equipamentos do Corpo de Bombeiros ou até aumentar os materiais e efetivo para o local do incêndio.
Combate a Incêndio
No combate a incêndio, o bombeiro deve observar os perigos específicos de cada indústria, tais como: Explosões, intoxicações, queimaduras, vazamento de produtos, processos industriais perigosos, dificuldade de controle, deslocamento, áreas de estocagem, etc..., pois as matérias primas utilizadas são as mais diversas, expondo o profissional a diferentes modalidades de perigo.
As indústrias possuem pelo menos uma ou mais das seguintes ocupações:
- Cabines de força
- Caldeiras
- Fornos
- Estufas
- Autoclaves
- Depósitos de líquidos inflamáveis
Os Fatores que podem influir na diferenciação dos incêndios em indústrias: dentre outros, aumentando em muito a possibilidade de uma explosão ou qualquer outro sinistro:
- Condições atmosféricas
- Tipo de edificação
- Existência de medidas de proteção ao maquinário e locais perigosos
- Condições de armazenamento (dentro ou não das normas de segurança)
- Existência ou não de equipamentos diversos de Prevenção e Combate à incêndio previstos de acordo com normas regulamentares
- Vigilância permanente ou não
- Brigada de incêndio industrial
- Tempo decorrido, do início do fogo ao combate inicial
- Tempo decorrido, do início do fogo a chegada do socorro do Corpo de Bombeiros.
Ataque
A estratégia de ataque é o objetivo precípuo dos bombeiros no combate aos incêndios e dentro da possibilidade sempre deve ser usada, observando a chegada no local da ocorrência, (sinalização, isolamento, apoio, etc.) preservando sempre a segurança pessoal, observando o uso do “EPI”.
No combate ao incêndio, pode haver ação defensiva, mas somente para impedir que o fogo progrida durante a operação. Caso o progresso do fogo não possa ser impedido, devem ser empregadas, simultaneamente, ações defensivas e de ataque.
A base da estratégia de ataque é a velocidade associada à técnica, a agressividade e rapidez da operação, sendo usada quando os recursos e técnicas forem suficientes para dominar a situação.
Defesa ou Salvaguarda
Para tomar essa decisão, na ocorrência de incêndio em indústria, o bombeiro necessita de conhecimentos técnicos de combate e extinção de incêndio (teóricos e práticos) adquiridos, utilizando-os imediatamente na chegada ao local.
Caso verifique alguma circunstância que diminua enormemente a possibilidade de sucesso, deve optar pela circunscrição do fogo a uma área limitada, decisão essa configurada como operação de defesa ou salvaguarda.
Na prática a operação de defesa ou salvaguarda deve ser empregada somente quando a estratégia de ataque não possa ser utilizada ou já tenha falhado. Em linhas gerais a operação de defesa ou salvaguarda, pode ser usada nas seguintes circunstâncias:
- Quando o perigo é visivelmente tão grande, que se qualifica de catastrófico e imenso, por queimar materiais cujas possibilidades de salvamento seriam mínimas e com exposição e riscos;
- Quando, no caso de materiais altamente inflamáveis, é iminente o risco da propagação rápida do fogo;
- Quando, comprometida a estrutura, há o perigo de desabamento da edificação incendiada;
- Quando, após vazamento de gás, produto perigoso ou risco de explosão, há prioridade de evacuação das proximidades do local do sinistro de pessoas e materiais;
- Quando os equipamentos são insuficientes ou inadequados para executar um ataque com êxito, quer por impossibilidade de lançar agentes extintores ao fogo, quer devido a falhas mecânicas, ou ainda, guarnições em quantidades insuficientes;
- Quando há falta de água ou outro material para executar um ataque maciço;
- Quando, em local aberto, a intensidade e velocidade do vento facilita a propagação, ocasionando inclusive outros focos de incêndio;
É certo também que determinadas ações são executadas e podem ser catalogadas como auxiliares da defesa e do ataque, ou sejam:
- Interrupção da corrente elétrica, na zona sinistrada; e
- Retirada de todos os materiais inflamáveis e explosivos que possam ser atingidos pela ação do fogo evitando o aumento de sua extensão (técnica de isolamento).
O estabelecimento de cortina d'agua, com a armação de linhas de mangueiras em pontos estratégicos, constitui uma operação de salvaguarda, com vistas aos prédios vizinhos.
O Comandante das operações deve assegurar a possibilidade de movimentar rapidamente as guarnições, passando da ação de defesa para a de ataque, devendo sempre ter em mente a possibilidade de aplicação imediata de um novo plano.
Equipamentos de Proteção Individual
Normalmente, no interior de indústrias existem operações que são prejudicadas e frequentemente impossibilitadas pela fumaça e pelo calor. A fim de que o acesso imediato a área incendiada seja possível, devem ser utilizados os mais eficientes métodos de proteção contra a fumaça, gases tóxicos e calor.
O Equipamento de Proteção Respiratória é indispensável em qualquer modalidade de combate à incêndio, prevenindo e evitando quaisquer males resultantes do calor, inalação de gases resultantes da combustão incompleta e demais gases que podem estar envolvidos no sinistro. Usar sempre EPR e EPI específico.
A todo o momento deve-se ficar atento aos perigos de explosão, intoxicação e asfixia, bem como de desabamentos, queimaduras e quedas.
O comportamento do Comandante das Operações vai interferir diretamente no sucesso da ocorrência, para tanto o mesmo deverá:
a) Ter máxima calma para controlar a situação
b) Manter serenidade nas decisões
c) Determinar ordens breves e precisas
d) Orientar da maneira mais fácil e rápida a atuação das guarnições nas ações a serem executadas
e) Não pretender ações perigosas prevenindo temores ou desordenação na guarnição
f) Não se deixar tomar pelo descontrole; por mais difícil que seja a situação, poderá tornar-se pior, se o bombeiro perder o controle
g) Encorajar o pessoal e animá-los com palavras de alento, em particular, quando a situação se agravar, não obstante todos os esforços empenhados
h) Não deixar o local até que a situação esteja completamente normalizada.
Combustão Incompleta
Quando um fogo se desenvolve em uma indústria com oxigênio em quantidade limitada ou insuficiente, diz-se que a combustão é incompleta. Em um ambiente onde o oxigênio se encontra puro (saída de oxigênio no cilindro) muitos corpos queimam sob a forma de explosão, o ponto crítico para combustão não é o mesmo para todos os corpos, por exemplo: os combustíveis líquidos não se queimam abaixo de 16 % de oxigênio, uma vela apagar-se-á com 14 % e o carvão abaixo de 8%.
Reconhece-se a combustão incompleta pela grande quantidade de fumaça, a qual contém pequenas partículas de fuligem, materiais irritantes e venenosos, principalmente monóxido de carbono (CO), que numa concentração de 2 % no ambiente mata em uma hora e em 10% mata imediatamente.
O perigo proveniente da combustão incompleta está, justamente na fumaça devido ao CO nela contida, bem como o bióxido de enxofre, ácido sulfídrico etc que lhe aumentam a toxidade, além dos gases nitrosados (queima incompleta de compostos de azoto) que são venenosos.
O reconhecimento dos gases nitrosados dá-se pela coloração amarela da fumaça e seu cheiro ocre (cheiro de terra, argila) A inalação desses gases, mesmo em pouca quantidade é suficiente para provocar danos à saúde ou levar à morte.
O celulóide e o acrílico são compostos de azoto muito comuns nos incêndios em indústrias e, causam sérios riscos à vida, pois além dos gases nitrosados, contém grandes quantidades de monóxido de carbono e compostos cianídricos.
Chamas de Ponta (línguas de fogo)
Quanto aos compostos cianídricos, deve-se lembrar que uma parte considerável desses gases são por si próprios, combustíveis, e que em certos casos, misturando-se com o ar. Tornam-se explosivos ou formam chamas de ponta (línguas de fogo).
As chamas de ponta constituem um risco considerável, pois favorecem o crescimento do fogo, oferecendo perigo às guarnições de combate, uma vez que se formam quando vapores ou gases combustíveis, que se encontram em movimento, misturam-se com o oxigênio do ambiente e entram em combustão podendo ocorrer ainda uma explosão.
Este fenômeno acontece comumente, nos seguintes casos:
- Vazamento de gás combustível sob pressão
- Incêndios localizados em sótãos ou porões
- Incêndios de filmes soltos (enrolados levemente)
- Curto-circuito de eletricidade de alta tensão
As chamas de ponta podem levar o fogo de um compartimento para outro, causando sérios problemas. Como as exigências de velocidade e mobilidade limitam o emprego de agentes extintores em larga escala neste tipo de operação, é fundamentalmente importante que a quantidade de agentes extintores de que se dispõe, seja empregada com o máximo de eficiência.
Em resumo, a estratégia de ataque é uma ação rápida, móvel e agressiva, dirigida diretamente contra o fogo, efetivada com muita eficiência, tanto em mobilidade como em potência, em que todos os meios disponíveis são utilizados para atacar e extinguir um incêndio.
Para realizar o ataque com sucesso, o Comandante das operações no local deverá conhecer:
- Localização do fogo
- Segurança da construção
- Pontos estratégicos do ataque
- Vias de acesso para exploração do local sinistrado e as condições das saídas (verificar se existem vidas a serem salvas)
- Passagens livres para se atingir a área sinistrada
- Suprimento d'água
- Distância entre o suprimento de água e o local do sinistro
- Pontos sensíveis, perigos iminentes, (material incendiado, proximidade de depósitos de matéria prima, depósitos de líquidos inflamáveis etc...)
- Condições de ventilação existente no local
- Direção do vento, em caso de incêndio em céu aberto, ou canalização de ventilação em ambientes fechados
- Capacidade de seu pessoal, equipamentos disponíveis
- Segurança em caso de retirada, tanto de pessoal como a do material, (o chamado “plano B”).
Conhecendo estrategicamente o local onde irá operar e os meios de que dispõe, bem como os problemas, o Comandante das Operações deve melhor empregar a tática adequada, para minimizar os riscos da ocorrência, isto é, as operações que desenvolverá, objetivando extinguir o fogo com um mínimo de prejuízo patrimonial.
Carga de Incêndio
Carga de incêndio é a soma das energias caloríficas possíveis de serem liberadas pela combustão completa de todos os materiais combustíveis contidos em um espaço, inclusive o revestimento das paredes, divisórias, pisos e tetos. Também podemos definir carga de incêndio como todo o material combustível existente em uma indústria (ou oficina), tanto estrutural como ocupacional, representando um potencial suscetível de incendiar-se em caso de sinistro.
A carga de incêndio de um estabelecimento concentra-se principalmente nos depósitos de matéria prima, produtos manufaturados e expedição.
Explosão
Uma explosão é um evento onde ocorre uma liberação brutal de energia associada a uma expansão rápida de gás. As misturas explosivas podem ocorrer com gases, vapores e pós em suspensão e podem ser ocasionadas por processos físicos ou por processos químicos.
As explosões ocasionadas por processos químicos são as resultantes da combustão, (reação química) e podem ser classificadas como:
- As resultantes de substâncias que contém auto-alimentação de oxigênio, denominadas explosivas (pólvora, dinamite, nitro-glicerina, nitrobenzol, ácido nítrico, peróxidos etc); e
- As resultantes de substâncias que necessitam da presença do oxigênio para formar misturas explosivas (carbureto de cálcio com fosfetos, amônia e cloro, substâncias graxas com oxigênio puro, permanganatos, ácidos etc).
A explosão química é consequência da combustão executada em alta velocidade, desenvolvendo, portanto, grande quantidade de energia e formando grande volume de gases, que ocasionam elevação da pressão, no prédio da indústria, onde ocorre.
A elevação da pressão também é consequência do aumento de temperatura, que nessa ocasião torna-se muito alta. As somas destes fatores provocam as explosões e consequentemente destruição e incêndio, na maioria das vezes, com vítimas.
Para que se tenha ideia da energia liberada em consequência de uma explosão bastam os seguintes dados experimentais:
Ao queimar um quilo de madeira maciça à temperatura adequada, são gastos cerca de dez minutos e se obtém um rendimento de 29 HP; entretanto, ao se queimar o mesmo quilo de madeira em forma de pó, gastar-se-á cerca de um segundo e obtêm-se um rendimento de 17.400 HP, isto em consequência do aumento da velocidade de combustão, sendo que neste último segundo caso, o pó estaria em suspensão no ar e a combustão dar-se-ia em forma de explosão.
Ainda, durante a combustão, obtêm-se um excesso de pressão, segundo a explicação seguinte:
Qualquer explosão é gerada no ambiente, onde se verifica um excesso de pressão consequente da expansão dos gases resultantes da reação entre combustível e ar ambiente, face ao aumento da temperatura. Segundo cálculos realizados este aumento de pressão (em atm.) corresponde para cada acréscimo de um grau centígrado, 1/273 da pressão inicial.
Assim, admitindo-se um incêndio de madeira com temperatura de 1200ºC, obter-se-á um aumento de pressão de 4,4 atmosfera, pois multiplicando-se 1200 por 1/273, o resultado é aproximadamente 4,4 atm; entretanto, tal pressão só se fará sentir no caso de explosão, pois na hipótese de uma combustão normal, o excesso de pressão é eliminado através das aberturas naturais do local onde ocorre a combustão, à medida que for sendo desenvolvida.
FONTE DE REFERÊNCIA
CESBOM - CENTRO DE ESTUDOS PARA BOMBEIROS
MANUAL DE COMBATE A INCÊNDIO EM INDÚSTRIAS (CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE SÃO PAULO)










