Podemos considerar que as praias arenosas oceânicas encontram-se entre os campos mais negligenciados do estudo científico dos ambientes ...

Podemos considerar que as praias arenosas oceânicas encontram-se entre os campos mais negligenciados do estudo científico dos ambientes costeiros, embora aproximadamente dois terços da população mundial vivam numa estreita faixa adjacente à costa, tendo sido as praias e estuários os primeiros ambientes a sofrerem diretamente o impacto do crescimento demográfico mundial.
No Brasil, a costa litorânea tem 9.200 Km, sendo as praias arenosas dominantes em quase toda sua extensão, exceto no extremo norte do país. As praias arenosas oceânicas apresentam-se como sistemas de alta instabilidade, sendo dinâmicas e sensíveis por estarem sujeitas às variações dos meios de energia local. Sofrem ainda por serem retrabalhadas por processos eólicos, biológicos e hidráulicos. Destacam-se entre estes as ondas geradas pelo vento, as correntes litorâneas, as oscilações de longo período e as marés.
Como consequência da atuação destas energias, as praias sofrem mudanças morfológicas e trocas de sedimentos com regiões adjacentes; atuam ainda as praias como zonas tampão, protegendo a costa da ação direta da energia do oceano, sendo esta sua principal função ambiental.
Praia
Segundo Inman, as águas próximas do litoral e de estuários constituem a parte do mar que exerce esmagadora preponderância sobre as coisas do dia-a-dia da humanidade. Cerca de dois terços da população mundial mora perto da costa. Ali, ondas, tempestades, marés e seculares modificações no nível do mar atingem suas culminâncias. As águas próximas do litoral invadem as praias, os portos e os estuários, tão importantes para a indústria, o entretenimento e o habitat humano. A zona próxima da praia é a parte do mar que mais preocupa os navegantes, por causa de seus perigosos baixios, fortes correntes e ondas destruidoras.
A plataforma continental é sítio de ricos depósitos de óleo e minerais, e as águas rasas que a recobrem contêm boa parte da vida animal e vegetal do oceano. O uso sempre crescente do oceano pelo homem e o tráfego e entrada cada vez maiores no oceano estão, acima de tudo, relacionados com processos que ocorrem na água rasa. Inversamente, é quase sempre nas águas próximas do litoral que os atos humanos, como, por exemplo, a eliminação de detritos, a pesca, a dragagem e as estruturas costeiras têm seu maior impacto sobre o oceano. (INMAN, 288)
Praias são depósitos de sedimentos, tais como areias, cascalhos, seixos e pedregulhos sobre a zona costeira, dominados principalmente por ondas e limitados internamente pelos níveis máximos de ação de ondas de tempestade (ressaca), pelo início da ocorrência de dunas fixadas ou qualquer outra alteração fisiográfica brusca, caso existam; e externamente pelo início da zona de arrebentação (indo em direção à terra), ponto até o qual os processos praiais dominam francamente o ambiente.
Para o estudioso Christofoletti, (1980) as formas de relevo litorâneas podem resultar da ação erosiva como da deposição, que caracterizam as costas escarpadas e as costas baixas ou planas. Quando, em virtude de modificação do nível do mar ou da terra, o mar entra em contato com uma escarpa íngreme emersa, estabelecem-se condições para a esculturação de uma cadeia de formas. O ataque das ondas, na zona intertidal, promove um entalhe de solapamento na escarpa, que provoca o desmoronamento da parte cimeira e elaboração da falésia. A falésia é um ressalto não coberto pela vegetação, com declividades muito acentuadas e de alturas variadas, localizado na linha de contato entre a terra e o mar.
À medida que a falésia vai recuando para o continente, amplia-se a superfície erodida pelas ondas que é chamada de terraço de abrasão. Os sedimentos erodidos das falésias são depositados em águas mais profundas, constituindo o terraço da construção marinha e formando um plano suavemente inclinado em conjunto com o terraço de abrasão. Esse plano é a zona de ação das sacas e da deriva litorânea. “As formas oriundas da sedimentação constituem um conjunto complexo. A praia é o conjunto de sedimentos, depositados ao longo do litoral, que se encontra em constante movimento. Em geral, o sedimento dominante é formado pelas areias, mas também existem praias formadas por cascalhos, seixos e por elementos mais finos que as areias. No território brasileiro, predominam as praias arenosas.
Entretanto, no Amapá, por causa da sedimentação dos detritos em suspensão e em solução transportados pelo rios, as praias são compostas por sedimentos argilosos. Nas áreas de climas temperados, frios ou áridos, as praias são constituídas de sedimentos mais grosseiros, de seixos e cascalhos, como nas famosas praias da Riviera Francesa. Por causa da movimentação rápida de seus sedimentos, as praias representam formas perfeitamente ajustadas ao equilíbrio do sistema litorâneo no influxo de energia. As ondas de tempestades podem arrasar determinadas praias que, posteriormente, são refeitas pela ação constante e normal das ondas.” (CHRISTOFOLETTI, 1980: 133-134)
Perfil de Praia e sua Variabilidade
De acordo com os estudiosos, Guerra & Cunha (1998),“O perfil transversal de uma praia varia com o ganho ou perda de areia, de acordo com a energia das ondas, ou seja, de acordo com as alternâncias entre tempo bom (engordamento) e tempestade (erosão). Nos locais em que o regime de ondas se diferencia significativamente entre verão e inverno, a praia desenvolve perfis sazonais típicos de acumulação e erosão, denominados perfil de verão e perfil de inverno, respectivamente. Dessa forma, ao adaptar seu perfil às diferentes condições oceanográficas, a praia desempenha papel fundamental na proteção do litoral contra a erosão marinha.” (GUERRA & CONHA, 1998:292)
Na praia, distinguem-se as seguintes zonas; segundo a hidrodinâmica:
Zona de Arrebentação (“breaking zone”) - é a porção da praia onde ocorre a quebração das ondas. A zona de arrebentação é a área compreendida entre a quebração mais distante e a mais próxima da costa. Pode haver mais de uma quebração nas praias. Isto ocorre quando há no ponto de quebra, em geral, a associação de um banco de areia, paralelo à costa, sendo seguido por uma vala. O número de zonas de quebração está, conseqüentemente, relacionado com o número de bancos de areia e valas existentes na praia. E o seu conjunto forma a zona de arrebentação.
Zona de Surfe (“surf zone”) - é a porção logo após a zona de arrebentação, onde as ondas, após o colapso da arrebentação, dissipam sua energia deslizando sobre sua base, em forma de espuma. É também chamado de espumeiro, marulho e outras denominações mais comuns, geralmente pelas comunidades praianas (pescadores, surfistas, etc). É uma área de extrema turbulência, indo até a zona de varrido. Em geral, os salvamentos ocorrem nesta área.
Zona de Varrido (“swash zone”) - é definida como a região entre a máxima e a mínima excursão da onda sobre a face da praia. Logo após a zona de varrido, pode acontecer uma feição deposicional, ou seja, um acúmulo de sedimentos chamada de berma. Devido às mudanças do nível da água, a zona de varrido torna-se seca e molhada alternadamente.
Subambientes Praiais: além das zonas acima descritas, existem ainda nas praias os seus subambientes, que são assim definidos por Fernanda Gemael Hoefel:
Pós-praia (“backshore”) - zona que se estende do limite superior do varrido até o início das dunas fixadas por vegetação ou de qualquer outra mudança fisiográfica brusca.
Face Praial (“beachface”) - identifica a parte do perfil praial sobre a qual ocorrem os processos da zona de varrido.
Praia Média - porção do perfil sobre o qual ocorrem os processos da zona de surfe e da zona de arrebentação, neste trabalho considerados ambos “zona de arrebentação”.
Antepraia (“shoreface”) - porção do perfil praial dominada por processos de refração, atrito com o fundo e empolamento (“shoaling”), que se estendem, em direção ao mar, a partir da zona de arrebentação até o limite máximo da ação das ondas sobre o fundo.
Cúspides Praiais - ocorrem na pós-praia e zona de varrido, sendo identificados por elevações transversais à praia, acompanhados por áreas de singela depressão, que muitas vezes abrigam correntes de retorno. São bem mais perceptíveis nas praias de tombo, e menos nas rasas.
FONTE DE REFERÊNCIA
MANUAL DO GUARDA-VIDAS (CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DE SÃO PAULO)

-compressed.jpg)
-compressed.jpg)







